sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Bruxa

Será que sonho o sonho que ainda não acabou? Sentado ou deitado ouço o tempo passando pianinho pela fresta da janela. Posso fechar para que entre de vez a escuridão, para que acenda uma vela e esta espante as bruxas do meu caminho. Não fui, ainda, atingido pela seta amarga da covardia, consigo trabalhar meus passos numa linha que não existe. Deito-me cedo.

E nos meus sonhos vejo flores negras na parede do meu céu. Quem sabe seja sorte...

Quem sabe a forma, a fórmula dos tempeiros sagrados da bruxaria, a forma do caldeirão de ferro e alça de arame? Respirar vapores, fungos podres de uma poção medíocre! Quem sabe o valor dos livros empoeirados nas estantes carcomidas pelo tal tempo, ou se quiser, pelos tais dos cupins, a sabedoria deixada escrita para a imaginação saber usar. É ela. Vem descendo os degráus úmidos, verde fungo, arrastando a ponta do vestido negro e surrado, os seios quase a mostra, naquele decote que não fecha mais, os cabelos pintados, molhados, vem pisando descalça, macio, as pedras frias do salão da magia. Vem experimentar o caldo que ferve, as plantinhas do poder fervilhando, fervilhando. Bebe na concha, dez goles inteiros. Cai no chão desfalecida.

- Vem gatinha vamos! Anima, não deixe que um simples tombo interrompa sua tão bela polga nesta grande fiesta punk!

Quem pode acreditar nos desvios do tal espaço-tempo? Balança a cabeça grande bruxa. Não deixe o feitiço te pegar pelo pé. Está novinha, é garotinha, atrás da porta que mamãe abriu por causa dos vizinhos arruaceiros do ap 106. E ela vê a menina chorando, estendida no chão daquele corredor que servia para suas brincadeiras de boneca de pano. Ela não pode entender aquele choro, e ela chora, fecha os olhos e outro lapso de tempo (o tal...) vem lhe envolver. Alguem lhe diz:

- Se é prá julgar o desejo do outro é bom dando o fora!

Preciso de um doutor, um causídico, um cúmplice, um amigo. E não um juizinho de merda! Bruxa aprendiz nos contos de fada, a moça tinha cabelos de fogo, língua de serpente, engendrou na própria alma a aparição de Lilith, a mulher não-escrava, a mulher mulher, e saiu para o mundo com uma vassoura no meio das pernas. Agora está presa num lapso do tal espaço-tempo, uma coisa mais concreta do que a água correndo nos rios, ou a areia fluindo pelo buraco de uma ampulheta, uma coisa mais sílida que as barras de ferro das prisões do calabouço do castelo, presa na verdade, pela mentira de suas máscaras, que agora escorrem pelo pescoço até o sexo.

Limpa, pálida, limpa, sangue, limpa.

Levanta do chão, olha em volta e constata o fima da viagem, solta uma sonora gargalhada, vê no alto, trepado numa janela, o corvo narrador, o atencioso companheiro de olhos brilhantes, estica o braço e este vem pousar suave no seu braço macio. Enfio as unhas bem fundo na sua carne, a pele branca e macia ganha uma mancha vermelha como seus cabelos, brilhante como meus olhos. Abro as asas e vôo de volta até a janelinha gradeada da torre. Olho para baixo e ela está lá, deixando aquele sangue pingar dentro do caldeirão que ainda fervilha. Foi a última vez que nos vimos, alcei vôo pela janela, fazia sol forte de verão, o céu estava completamente azul.