quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Amante

Será que vou conseguir manter na memória as coisas lindas da infância? As manhãs ensolaradas sob a sombra das árvores retorcidas do cerrado. Da minha inocência, da viagem que um dia termina, que é sempre solitária, o ego-mor dizendo ao pé do ouvido as coisas que os olhos veem, as mãos pegam, os pés pisam e todo o resto.Será que vou poder voltar à brincar como nos 7? Fazer besteira, cantar a anarquia, sem ser jogo, sem ser afirmativo. Sendo apenas as manhãs de sol morno e gostoso da nossa infância. É mesmo, para quê falar dos campos se temos os olhos (não somos cegos), para quê falar da cólera, se eu sinto, e ninguém, ninguém mesmo, sente igual, é tudo feito de palavras, estas coisas que a gente pensa. E eu vou falar...
Será que eu sou um mensageiro perdido das coisas que não vamos poder realizar? As coisas que ficam pululando na nossa mente, tal qual um sonho etílico, de uma noite quente, e os mosquistos zunindo tão perto do ouvido? Não sei, o corpo não consegue aprender tão fácil, o inconsciente burro e teimoso. Flexível é o cérebro que tem a transmissão racional das experiências. O corpo é terrívelmente químico, não sei, não posso prever o futuro, ele nem existe... Sou o amante das manhãs de chuva fina e céu cinza. O cobertor gelado, a garganta sêca, a boca pálida, o falo ereto, doendo de tesão, uma vontade só de beijo, beijo mordido gastando essa energia gostosa, gostosa... sou amante, amante do inesperado, da loucura apertada da saudade de dez trepadas numa tarde, tudo acontece tão rápido! Todos os lugares para se ir, todas as bocas para olhar, é olhar.. thru-thru... por dentro.

Sou amante, não sou marido. Sou amante da terra sem quere tê-la, sem querer possuí-la, não interessa quem a cultive ou destrua, quem a proteja ou conquiste, só quero andar tranquilo por sua superfície, ver os campos, subir as montanhas, sentir a terra nos pés descalços... deitar... sentir os pelos finos no arrepio, escorregar por entre os seios e morder com força e carinho cada mamilo, ficar sentindo eles endurecerem dentro da boca, entre os dentes, descer... molhando o ventre, o vazio carnal, o demônio do gozo, contendo, contido e largado no corpo inteiro. Flanar com os dedos da mão rude e áspera por todos os cantos, curvas, voltas, o púbis molhado, o mel do fogo, a abelha rainha escondida lá dentro, dum favo original, único e saboroso, e no fim comer com toda gula a emoção de tais pecados, sublimar o pensamento e os valores, morais, banais demais para superar um gozo genial.

Sou mesmo o amante, livre e inesperado, como uma estrela cadente numa noite qualquer, num pedido secreto que pulsa. Pulsa dentro e fora no meio das pernas no meio da vida desta vida que nem existe, é minha viagem solitária que terminará no inesperado, na morte!

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