terça-feira, 28 de agosto de 2007

Poesia daquele tempo

Naquele tempo o mundo parecia tão sombrio apesar do ar limpo e perfumado da respiração forte e fácil...

E logo nas primeiras luas chovia sem parar, as paredes ficavam úmidas e podia sentir o cheiro forte do mofo. a lama se depositava nos pés da porta e os sapatos sujos eram lavados na pia do banheiro, quase todo dia, e quase todo dia iam ser secados no calor daquele fogão de ferro fundido comprado há muitos, muitos anos.

e todos dias pela manhã os mesmos pés calçavam os mesmos sapatos, secos e quentes e repetiam a caminhada diária rumo ao trabalho. Naquele tempo a chuva era grossa e fria , os relâmpagos no céu e os gritos das crianças eram tão comuns quanto os pingos de goteira no meio da sala pingando naquela panela velha de fazer feijão.

As paredes sujas e amareladas, os móveis de madeira simples, simplesmente móveis, o sofá gostoso de três poltronas, o tecido e seu cheiro, o conforto delicado e tranquilo, sem segurança, sem nada disso... Naquele tempo o mundo era imenso e tão misterioso, a ciência ainda era magia
e as coisas de massa ainda eram tão originais, a tecnologia era a inventividade de cada um para suprir as necessidades individuais, uma amiga secreta e fiel da grande preguiça.

A cultura... ah! a cultura....

Os olhos eram senhores, e a pele macia. E tudo parecia tão deliciosamente distante, tão perdido entre tantas coisas que não se podia nem imaginar que pudessem existir. Mas isso tudo nem importava, a ignorância era um bem resguardado inconscientemente.

Os cabelos pretos e longos escondendo a nuca, balançando de tão belo ao som do vento sul, ao embalo dos sopros polares. E o sentido de tudo ficava ofuscado pelo brilho daqueles olhos, da ternura daquela pele fria, e o doce bailado dos cabelos soltos. Soltura e liberdade, palavras conhecidas e desconhecidas naturalmente.

Naquele tempo as árvores floriam e a gente sabia que o mundo inteiro nos convidava ao amor. Quando a lua surgia redonda por detrás das matas, e um pássaro voava passando em frente
feito silhueta, o vale inteiro suspirava de prazeres, e os jovens, velhos, adultos e crianças brincavam pelos campos sem parar sem parar de brincar brincar de amar.

E ninguém era feliz, e ninguém era triste, pois não existia um significado para estas coisas eram coisas assim, eram essas coisas que não precisam de significado algum elas apenas existiam e isto bastava.

Naquele tempo, o tempo era tão precioso, pois era percebido em toda sua fugacidade, no seu lampejo de beleza efêmera, as pessoas falavam macio,falavam lento e gostoso como num vai-e-vem calmo dum coito de amor. As estórias de experiências pessoais eram contadas em roda, nada tão profundo quanto os livros de biblioteca mas tão necessário quanto o alimento cultivado com muito carinho e habilidade. Aí os olhares se cruzavam os lábios nem se mexiam, as mãos no coladas no colo, a vida passando sem precisar passar só acontecendo como sempre faz não importa quando nem aonde, e, engraçado, ninguém sabia disso, assim como estou dizendo.

E um dia, um dia qualquer... veio um homem num carro lindo, latas cromadas brilhando mais que o sol, brilhando mais que os olhos das crianças em noite de lua cheia nas estórias de roda. Trouxe notícias do mundo,do mundo onde todos viviam, mostrou que a ciência não era mágica e que tudo era bem previsto e calculado. Falava rápido, parecia que tinha muito a dizer, por isso falava rápido. Tinha roupas novas de um acabamento maravilhoso. Mostrou fotografias ensinou os meninos e meninas a ler e escrever, mostrou que todos tinham muito, muito a aprender, que os tempos sombrios haviam passado, que existia um deus e que os livros traziam a luz e que puxariam todos para um novo, novíssimo lugar. Todos juntos indo para algum lugar. Não dizia onde era mas garantia que existia.

E foi aí...
Foi aí que perdi os olhos dela. Foi então que nunca mais senti aquela pele doce e fria, nas noites de jogos e fogueiras nas noites de lua cheia. Perdi seus longos cabelos na multidão apressada na buzina aflita dos carros, na fumaça cinza das chaminés das fábricas. Tanta gente estranha dizendo nada e fazendo nada daquilo que fala...

As armas tão bem polidas quanto o corte de cabelo daquele homem bonito que trouxe a miséria e a fome para dentro de nossas vidas de nossos olhos do perfume escondido daquela menina que se perdeu no meio de tanta luz de tantos sons e de tantas pessoas contando estórias sobre a experiência vivida de outros homens que estão nos livros, nas bibliotecas que a gente aprendeu agora que se chama história que a gente está no meio dela feito um galho no meio dum rio de corredeiras, sendo puxado para uma cachoeira...

Naquele tempo o mundo parecia tão sombrio e os cabelos dela se emaranhavam em meus dedos, na relva do vale, até amanhecer outra vez...