
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Bruxa
Será que sonho o sonho que ainda não acabou? Sentado ou deitado ouço o tempo passando pianinho pela fresta da janela. Posso fechar para que entre de vez a escuridão, para que acenda uma vela e esta espante as bruxas do meu caminho. Não fui, ainda, atingido pela seta amarga da covardia, consigo trabalhar meus passos numa linha que não existe. Deito-me cedo.
E nos meus sonhos vejo flores negras na parede do meu céu. Quem sabe seja sorte...
Quem sabe a forma, a fórmula dos tempeiros sagrados da bruxaria, a forma do caldeirão de ferro e alça de arame? Respirar vapores, fungos podres de uma poção medíocre! Quem sabe o valor dos livros empoeirados nas estantes carcomidas pelo tal tempo, ou se quiser, pelos tais dos cupins, a sabedoria deixada escrita para a imaginação saber usar. É ela. Vem descendo os degráus úmidos, verde fungo, arrastando a ponta do vestido negro e surrado, os seios quase a mostra, naquele decote que não fecha mais, os cabelos pintados, molhados, vem pisando descalça, macio, as pedras frias do salão da magia. Vem experimentar o caldo que ferve, as plantinhas do poder fervilhando, fervilhando. Bebe na concha, dez goles inteiros. Cai no chão desfalecida.
- Vem gatinha vamos! Anima, não deixe que um simples tombo interrompa sua tão bela polga nesta grande fiesta punk!
Quem pode acreditar nos desvios do tal espaço-tempo? Balança a cabeça grande bruxa. Não deixe o feitiço te pegar pelo pé. Está novinha, é garotinha, atrás da porta que mamãe abriu por causa dos vizinhos arruaceiros do ap 106. E ela vê a menina chorando, estendida no chão daquele corredor que servia para suas brincadeiras de boneca de pano. Ela não pode entender aquele choro, e ela chora, fecha os olhos e outro lapso de tempo (o tal...) vem lhe envolver. Alguem lhe diz:
- Se é prá julgar o desejo do outro é bom dando o fora!
Preciso de um doutor, um causídico, um cúmplice, um amigo. E não um juizinho de merda! Bruxa aprendiz nos contos de fada, a moça tinha cabelos de fogo, língua de serpente, engendrou na própria alma a aparição de Lilith, a mulher não-escrava, a mulher mulher, e saiu para o mundo com uma vassoura no meio das pernas. Agora está presa num lapso do tal espaço-tempo, uma coisa mais concreta do que a água correndo nos rios, ou a areia fluindo pelo buraco de uma ampulheta, uma coisa mais sílida que as barras de ferro das prisões do calabouço do castelo, presa na verdade, pela mentira de suas máscaras, que agora escorrem pelo pescoço até o sexo.
Limpa, pálida, limpa, sangue, limpa.
Levanta do chão, olha em volta e constata o fima da viagem, solta uma sonora gargalhada, vê no alto, trepado numa janela, o corvo narrador, o atencioso companheiro de olhos brilhantes, estica o braço e este vem pousar suave no seu braço macio. Enfio as unhas bem fundo na sua carne, a pele branca e macia ganha uma mancha vermelha como seus cabelos, brilhante como meus olhos. Abro as asas e vôo de volta até a janelinha gradeada da torre. Olho para baixo e ela está lá, deixando aquele sangue pingar dentro do caldeirão que ainda fervilha. Foi a última vez que nos vimos, alcei vôo pela janela, fazia sol forte de verão, o céu estava completamente azul.
E nos meus sonhos vejo flores negras na parede do meu céu. Quem sabe seja sorte...
Quem sabe a forma, a fórmula dos tempeiros sagrados da bruxaria, a forma do caldeirão de ferro e alça de arame? Respirar vapores, fungos podres de uma poção medíocre! Quem sabe o valor dos livros empoeirados nas estantes carcomidas pelo tal tempo, ou se quiser, pelos tais dos cupins, a sabedoria deixada escrita para a imaginação saber usar. É ela. Vem descendo os degráus úmidos, verde fungo, arrastando a ponta do vestido negro e surrado, os seios quase a mostra, naquele decote que não fecha mais, os cabelos pintados, molhados, vem pisando descalça, macio, as pedras frias do salão da magia. Vem experimentar o caldo que ferve, as plantinhas do poder fervilhando, fervilhando. Bebe na concha, dez goles inteiros. Cai no chão desfalecida.
- Vem gatinha vamos! Anima, não deixe que um simples tombo interrompa sua tão bela polga nesta grande fiesta punk!
Quem pode acreditar nos desvios do tal espaço-tempo? Balança a cabeça grande bruxa. Não deixe o feitiço te pegar pelo pé. Está novinha, é garotinha, atrás da porta que mamãe abriu por causa dos vizinhos arruaceiros do ap 106. E ela vê a menina chorando, estendida no chão daquele corredor que servia para suas brincadeiras de boneca de pano. Ela não pode entender aquele choro, e ela chora, fecha os olhos e outro lapso de tempo (o tal...) vem lhe envolver. Alguem lhe diz:
- Se é prá julgar o desejo do outro é bom dando o fora!
Preciso de um doutor, um causídico, um cúmplice, um amigo. E não um juizinho de merda! Bruxa aprendiz nos contos de fada, a moça tinha cabelos de fogo, língua de serpente, engendrou na própria alma a aparição de Lilith, a mulher não-escrava, a mulher mulher, e saiu para o mundo com uma vassoura no meio das pernas. Agora está presa num lapso do tal espaço-tempo, uma coisa mais concreta do que a água correndo nos rios, ou a areia fluindo pelo buraco de uma ampulheta, uma coisa mais sílida que as barras de ferro das prisões do calabouço do castelo, presa na verdade, pela mentira de suas máscaras, que agora escorrem pelo pescoço até o sexo.
Limpa, pálida, limpa, sangue, limpa.
Levanta do chão, olha em volta e constata o fima da viagem, solta uma sonora gargalhada, vê no alto, trepado numa janela, o corvo narrador, o atencioso companheiro de olhos brilhantes, estica o braço e este vem pousar suave no seu braço macio. Enfio as unhas bem fundo na sua carne, a pele branca e macia ganha uma mancha vermelha como seus cabelos, brilhante como meus olhos. Abro as asas e vôo de volta até a janelinha gradeada da torre. Olho para baixo e ela está lá, deixando aquele sangue pingar dentro do caldeirão que ainda fervilha. Foi a última vez que nos vimos, alcei vôo pela janela, fazia sol forte de verão, o céu estava completamente azul.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Amante
Será que vou conseguir manter na memória as coisas lindas da infância? As manhãs ensolaradas sob a sombra das árvores retorcidas do cerrado. Da minha inocência, da viagem que um dia termina, que é sempre solitária, o ego-mor dizendo ao pé do ouvido as coisas que os olhos veem, as mãos pegam, os pés pisam e todo o resto.
Será que vou poder voltar à brincar como nos 7? Fazer besteira, cantar a anarquia, sem ser jogo, sem ser afirmativo. Sendo apenas as manhãs de sol morno e gostoso da nossa infância. É mesmo, para quê falar dos campos se temos os olhos (não somos cegos), para quê falar da cólera, se eu sinto, e ninguém, ninguém mesmo, sente igual, é tudo feito de palavras, estas coisas que a gente pensa. E eu vou falar...
Será que eu sou um mensageiro perdido das coisas que não vamos poder realizar? As coisas que ficam pululando na nossa mente, tal qual um sonho etílico, de uma noite quente, e os mosquistos zunindo tão perto do ouvido? Não sei, o corpo não consegue aprender tão fácil, o inconsciente burro e teimoso. Flexível é o cérebro que tem a transmissão racional das experiências. O corpo é terrívelmente químico, não sei, não posso prever o futuro, ele nem existe...
Sou o amante das manhãs de chuva fina e céu cinza. O cobertor gelado, a garganta sêca, a boca pálida, o falo ereto, doendo de tesão, uma vontade só de beijo, beijo mordido gastando essa energia gostosa, gostosa... sou amante, amante do inesperado, da loucura apertada da saudade de dez trepadas numa tarde, tudo acontece tão rápido! Todos os lugares para se ir, todas as bocas para olhar, é olhar.. thru-thru... por dentro.
Será que vou poder voltar à brincar como nos 7? Fazer besteira, cantar a anarquia, sem ser jogo, sem ser afirmativo. Sendo apenas as manhãs de sol morno e gostoso da nossa infância. É mesmo, para quê falar dos campos se temos os olhos (não somos cegos), para quê falar da cólera, se eu sinto, e ninguém, ninguém mesmo, sente igual, é tudo feito de palavras, estas coisas que a gente pensa. E eu vou falar...
Será que eu sou um mensageiro perdido das coisas que não vamos poder realizar? As coisas que ficam pululando na nossa mente, tal qual um sonho etílico, de uma noite quente, e os mosquistos zunindo tão perto do ouvido? Não sei, o corpo não consegue aprender tão fácil, o inconsciente burro e teimoso. Flexível é o cérebro que tem a transmissão racional das experiências. O corpo é terrívelmente químico, não sei, não posso prever o futuro, ele nem existe...
Sou o amante das manhãs de chuva fina e céu cinza. O cobertor gelado, a garganta sêca, a boca pálida, o falo ereto, doendo de tesão, uma vontade só de beijo, beijo mordido gastando essa energia gostosa, gostosa... sou amante, amante do inesperado, da loucura apertada da saudade de dez trepadas numa tarde, tudo acontece tão rápido! Todos os lugares para se ir, todas as bocas para olhar, é olhar.. thru-thru... por dentro.Sou amante, não sou marido. Sou amante da terra sem quere tê-la, sem querer possuí-la, não interessa quem a cultive ou destrua, quem a proteja ou conquiste, só quero andar tranquilo por sua superfície, ver os campos, subir as montanhas, sentir a terra nos pés descalços... deitar... sentir os pelos finos no arrepio, escorregar por entre os seios e morder com força e carinho cada mamilo, ficar sentindo eles endurecerem dentro da boca, entre os dentes, descer... molhando o ventre, o vazio carnal, o demônio do gozo, contendo, contido e largado no corpo inteiro. Flanar com os dedos da mão rude e áspera por todos os cantos, curvas, voltas, o púbis molhado, o mel do fogo, a abelha rainha escondida lá dentro, dum favo original, único e saboroso, e no fim comer com toda gula a emoção de tais pecados, sublimar o pensamento e os valores, morais, banais demais para superar um gozo genial.
Sou mesmo o amante, livre e inesperado, como uma estrela cadente numa noite qualquer, num pedido secreto que pulsa. Pulsa dentro e fora no meio das pernas no meio da vida desta vida que nem existe, é minha viagem solitária que terminará no inesperado, na morte!
sábado, 8 de setembro de 2007
Fim de tarde na anarquia
Quem sabe isso tudo tenha haver com as tardes de miopia, o sol galante anteparado por toda aquela bruma, o vento frio ecoando seu nome na ponta das orelhas, o cachecol fazendo cena de bandeira, sob os olhos vermelhos e a boca seca.
Ou,
disso tudo nada tenha haver as meninas de meias brancas, a impura beleza de branco e meio nos saltos, a fila esticadinha, as meninas paradas de quatro em quatro, fazendo andança debaixo da lona (e não é circo), é o sol galante em posição de quatro quintos, golden photo, morena linda, olhando pro céu.
Mas disto tudo,
o que mais vale é o comprimento inatingível de desejos entre as tardes sombrias e a vida na anarquia.
Que morena linda!
Ou,
disso tudo nada tenha haver as meninas de meias brancas, a impura beleza de branco e meio nos saltos, a fila esticadinha, as meninas paradas de quatro em quatro, fazendo andança debaixo da lona (e não é circo), é o sol galante em posição de quatro quintos, golden photo, morena linda, olhando pro céu.
Mas disto tudo,
o que mais vale é o comprimento inatingível de desejos entre as tardes sombrias e a vida na anarquia.
Que morena linda!
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Poesia daquele tempo
Naquele tempo o mundo parecia tão sombrio apesar do ar limpo e perfumado da respiração forte e fácil...
E logo nas primeiras luas chovia sem parar, as paredes ficavam úmidas e podia sentir o cheiro forte do mofo. a lama se depositava nos pés da porta e os sapatos sujos eram lavados na pia do banheiro, quase todo dia, e quase todo dia iam ser secados no calor daquele fogão de ferro fundido comprado há muitos, muitos anos.
e todos dias pela manhã os mesmos pés calçavam os mesmos sapatos, secos e quentes e repetiam a caminhada diária rumo ao trabalho. Naquele tempo a chuva era grossa e fria , os relâmpagos no céu e os gritos das crianças eram tão comuns quanto os pingos de goteira no meio da sala pingando naquela panela velha de fazer feijão.
As paredes sujas e amareladas, os móveis de madeira simples, simplesmente móveis, o sofá gostoso de três poltronas, o tecido e seu cheiro, o conforto delicado e tranquilo, sem segurança, sem nada disso... Naquele tempo o mundo era imenso e tão misterioso, a ciência ainda era magia
e as coisas de massa ainda eram tão originais, a tecnologia era a inventividade de cada um para suprir as necessidades individuais, uma amiga secreta e fiel da grande preguiça.
A cultura... ah! a cultura....
Os olhos eram senhores, e a pele macia. E tudo parecia tão deliciosamente distante, tão perdido entre tantas coisas que não se podia nem imaginar que pudessem existir. Mas isso tudo nem importava, a ignorância era um bem resguardado inconscientemente.
Os cabelos pretos e longos escondendo a nuca, balançando de tão belo ao som do vento sul, ao embalo dos sopros polares. E o sentido de tudo ficava ofuscado pelo brilho daqueles olhos, da ternura daquela pele fria, e o doce bailado dos cabelos soltos. Soltura e liberdade, palavras conhecidas e desconhecidas naturalmente.
Naquele tempo as árvores floriam e a gente sabia que o mundo inteiro nos convidava ao amor. Quando a lua surgia redonda por detrás das matas, e um pássaro voava passando em frente
feito silhueta, o vale inteiro suspirava de prazeres, e os jovens, velhos, adultos e crianças brincavam pelos campos sem parar sem parar de brincar brincar de amar.
E ninguém era feliz, e ninguém era triste, pois não existia um significado para estas coisas eram coisas assim, eram essas coisas que não precisam de significado algum elas apenas existiam e isto bastava.
Naquele tempo, o tempo era tão precioso, pois era percebido em toda sua fugacidade, no seu lampejo de beleza efêmera, as pessoas falavam macio,falavam lento e gostoso como num vai-e-vem calmo dum coito de amor. As estórias de experiências pessoais eram contadas em roda, nada tão profundo quanto os livros de biblioteca mas tão necessário quanto o alimento cultivado com muito carinho e habilidade. Aí os olhares se cruzavam os lábios nem se mexiam, as mãos no coladas no colo, a vida passando sem precisar passar só acontecendo como sempre faz não importa quando nem aonde, e, engraçado, ninguém sabia disso, assim como estou dizendo.
E um dia, um dia qualquer... veio um homem num carro lindo, latas cromadas brilhando mais que o sol, brilhando mais que os olhos das crianças em noite de lua cheia nas estórias de roda. Trouxe notícias do mundo,do mundo onde todos viviam, mostrou que a ciência não era mágica e que tudo era bem previsto e calculado. Falava rápido, parecia que tinha muito a dizer, por isso falava rápido. Tinha roupas novas de um acabamento maravilhoso. Mostrou fotografias ensinou os meninos e meninas a ler e escrever, mostrou que todos tinham muito, muito a aprender, que os tempos sombrios haviam passado, que existia um deus e que os livros traziam a luz e que puxariam todos para um novo, novíssimo lugar. Todos juntos indo para algum lugar. Não dizia onde era mas garantia que existia.
E foi aí...
Foi aí que perdi os olhos dela. Foi então que nunca mais senti aquela pele doce e fria, nas noites de jogos e fogueiras nas noites de lua cheia. Perdi seus longos cabelos na multidão apressada na buzina aflita dos carros, na fumaça cinza das chaminés das fábricas. Tanta gente estranha dizendo nada e fazendo nada daquilo que fala...
As armas tão bem polidas quanto o corte de cabelo daquele homem bonito que trouxe a miséria e a fome para dentro de nossas vidas de nossos olhos do perfume escondido daquela menina que se perdeu no meio de tanta luz de tantos sons e de tantas pessoas contando estórias sobre a experiência vivida de outros homens que estão nos livros, nas bibliotecas que a gente aprendeu agora que se chama história que a gente está no meio dela feito um galho no meio dum rio de corredeiras, sendo puxado para uma cachoeira...
Naquele tempo o mundo parecia tão sombrio e os cabelos dela se emaranhavam em meus dedos, na relva do vale, até amanhecer outra vez...
E logo nas primeiras luas chovia sem parar, as paredes ficavam úmidas e podia sentir o cheiro forte do mofo. a lama se depositava nos pés da porta e os sapatos sujos eram lavados na pia do banheiro, quase todo dia, e quase todo dia iam ser secados no calor daquele fogão de ferro fundido comprado há muitos, muitos anos.
e todos dias pela manhã os mesmos pés calçavam os mesmos sapatos, secos e quentes e repetiam a caminhada diária rumo ao trabalho. Naquele tempo a chuva era grossa e fria , os relâmpagos no céu e os gritos das crianças eram tão comuns quanto os pingos de goteira no meio da sala pingando naquela panela velha de fazer feijão.
As paredes sujas e amareladas, os móveis de madeira simples, simplesmente móveis, o sofá gostoso de três poltronas, o tecido e seu cheiro, o conforto delicado e tranquilo, sem segurança, sem nada disso... Naquele tempo o mundo era imenso e tão misterioso, a ciência ainda era magia
e as coisas de massa ainda eram tão originais, a tecnologia era a inventividade de cada um para suprir as necessidades individuais, uma amiga secreta e fiel da grande preguiça.
A cultura... ah! a cultura....
Os olhos eram senhores, e a pele macia. E tudo parecia tão deliciosamente distante, tão perdido entre tantas coisas que não se podia nem imaginar que pudessem existir. Mas isso tudo nem importava, a ignorância era um bem resguardado inconscientemente.
Os cabelos pretos e longos escondendo a nuca, balançando de tão belo ao som do vento sul, ao embalo dos sopros polares. E o sentido de tudo ficava ofuscado pelo brilho daqueles olhos, da ternura daquela pele fria, e o doce bailado dos cabelos soltos. Soltura e liberdade, palavras conhecidas e desconhecidas naturalmente.
Naquele tempo as árvores floriam e a gente sabia que o mundo inteiro nos convidava ao amor. Quando a lua surgia redonda por detrás das matas, e um pássaro voava passando em frente
feito silhueta, o vale inteiro suspirava de prazeres, e os jovens, velhos, adultos e crianças brincavam pelos campos sem parar sem parar de brincar brincar de amar.
E ninguém era feliz, e ninguém era triste, pois não existia um significado para estas coisas eram coisas assim, eram essas coisas que não precisam de significado algum elas apenas existiam e isto bastava.
Naquele tempo, o tempo era tão precioso, pois era percebido em toda sua fugacidade, no seu lampejo de beleza efêmera, as pessoas falavam macio,falavam lento e gostoso como num vai-e-vem calmo dum coito de amor. As estórias de experiências pessoais eram contadas em roda, nada tão profundo quanto os livros de biblioteca mas tão necessário quanto o alimento cultivado com muito carinho e habilidade. Aí os olhares se cruzavam os lábios nem se mexiam, as mãos no coladas no colo, a vida passando sem precisar passar só acontecendo como sempre faz não importa quando nem aonde, e, engraçado, ninguém sabia disso, assim como estou dizendo.
E um dia, um dia qualquer... veio um homem num carro lindo, latas cromadas brilhando mais que o sol, brilhando mais que os olhos das crianças em noite de lua cheia nas estórias de roda. Trouxe notícias do mundo,do mundo onde todos viviam, mostrou que a ciência não era mágica e que tudo era bem previsto e calculado. Falava rápido, parecia que tinha muito a dizer, por isso falava rápido. Tinha roupas novas de um acabamento maravilhoso. Mostrou fotografias ensinou os meninos e meninas a ler e escrever, mostrou que todos tinham muito, muito a aprender, que os tempos sombrios haviam passado, que existia um deus e que os livros traziam a luz e que puxariam todos para um novo, novíssimo lugar. Todos juntos indo para algum lugar. Não dizia onde era mas garantia que existia.
E foi aí...
Foi aí que perdi os olhos dela. Foi então que nunca mais senti aquela pele doce e fria, nas noites de jogos e fogueiras nas noites de lua cheia. Perdi seus longos cabelos na multidão apressada na buzina aflita dos carros, na fumaça cinza das chaminés das fábricas. Tanta gente estranha dizendo nada e fazendo nada daquilo que fala...
As armas tão bem polidas quanto o corte de cabelo daquele homem bonito que trouxe a miséria e a fome para dentro de nossas vidas de nossos olhos do perfume escondido daquela menina que se perdeu no meio de tanta luz de tantos sons e de tantas pessoas contando estórias sobre a experiência vivida de outros homens que estão nos livros, nas bibliotecas que a gente aprendeu agora que se chama história que a gente está no meio dela feito um galho no meio dum rio de corredeiras, sendo puxado para uma cachoeira...
Naquele tempo o mundo parecia tão sombrio e os cabelos dela se emaranhavam em meus dedos, na relva do vale, até amanhecer outra vez...
terça-feira, 3 de julho de 2007
Burguesinha

Vai ficar assim tudo quieto, tudo careta? Assim deprimido, sem graça como suco de fruta aguado sem açúcar? Ei? Vai ficar o tempo todo fingindo? Não, não vai entender a originalidade única de cada um? Ilusão, ilusão! Será que vai ter tudo sem ser nada? Vai continuar acontecendo esta cumplicidade burra do pobre e do burguês, vai ficar aprendendo certos toques de magia e entender que não se passa de uma ginga? Vai passar esta ilusão besta do consumismo? Vai ficar nesta pose? E na hora H fazer biquinho, chamar a polícia para proteger o seu patrimônio, se sentir segura atrás do batom vermelho, do carro do ano, de vidro fumê, ar condicionado, e... pega ladrão!
Como é que você consegue ficar de cara? Ser cúmplice desta normalidade estreita?Só não quero que você pense que eu vou representar. Nesta hora vou ser egoísta.
Vai ficar assim mesmo?
Assinar:
Postagens (Atom)